Sofia Vitória Lopes
Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco de sua história e falasse sobre seu empreendimento.
Bom, eu, Augusto, nasci aqui em Londrina mesmo e passei minha infância por aqui. Sempre fui uma criança muito alegre e determinada e, desde cedo, comecei a jogar futebol e a me destacar. Aos 13 anos, recebi um convite para morar em Curitiba e jogar no Atlético Paranaense, e acho que foi aí que começou um pouco da minha trajetória profissional. Lá eu pude aprender muitas coisas que acabaram sendo importantes não só para o futebol, mas também para a minha vida. Tive contato com pessoas e culturas diferentes, aprendi a trabalhar sob pressão e a lidar com expectativas altas de performance e rendimento.
Morei em Curitiba até 2021 e, em 2022, fui para o Rio de Janeiro jogar no Botafogo. Fiquei aproximadamente um ano lá e depois voltei para Londrina, encerrando meu período como atleta de base. Logo depois que parei de jogar, ingressei em uma faculdade de Marketing, porque sempre tive muita afinidade com essa área. Sempre gostei de estudar marcas, entender como elas são construídas e conhecer as histórias por trás delas. E foi durante a faculdade que eu comecei a empreender e coloquei em prática aquilo que estava aprendendo. Foi assim que nasceu a Soltanto, que hoje é uma marca de xaropes para drinks.

Conte-nos um pouco de como foi a sua trajetória e como começou a história da Soltanto.
Durante a faculdade, eu decidi colocar em prática o que estava aprendendo em Marketing e criei minha primeira marca, que já era a Soltanto, mas naquela época se chamava Soltanto Juice.
Eu produzia suco de laranja, que era um produto relativamente simples para começar. Eu mesmo desenvolvi a embalagem, o rótulo e comecei a fazer os primeiros contatos com fornecedores. Foi uma experiência muito importante, porque me abriu os olhos para entender como o mercado realmente funciona e comecei a desenvolver, na prática, esse meu lado empreendedor.
Depois de um tempo, percebi que a laranja estava ficando muito cara e que a margem de lucro por garrafa era pequena. Então comecei a pesquisar outros produtos que poderiam ter uma margem maior. Eu sempre gostei muito de xaropes e, pesquisando o mercado, percebi que existia uma oportunidade interessante nesse segmento. Foi então que me reuni com um amigo que, na época, era gastrônomo e nutricionista, e começamos a estudar receitas e fazer testes em casa. Depois de aproximadamente nove meses de testes, conseguimos chegar às nossas primeiras três receitas: morango, limão-siciliano e tangerina.
Um dos maiores desafios naquele começo foi justamente a falta de verba. Os insumos e principalmente os aromas tinham um custo alto. Em determinado momento, esse meu colega decidiu sair do projeto porque não conseguiria arcar com os custos. Eu tinha guardado uma parte do dinheiro que havia ganhado durante o futebol e decidi apostar praticamente tudo naquele projeto.
Os primeiros meses foram muito bons. Conseguimos vender os primeiros produtos e recuperar todo o valor que eu havia investido. E foi aí que eu percebi que aquilo poderia realmente se transformar em um negócio.
Como foi o momento em que a ideia virou um produto de verdade?
Olha, eu acho que não teve um momento específico. Foi muito mais uma construção ao longo do tempo. Tudo começou ainda no futebol, com os conhecimentos e experiências que fui adquirindo, e depois com a experiência de criar meu primeiro produto, o Soltanto Juice. Essa primeira experiência foi imprescindível para que eu entendesse um pouco melhor como transformar uma ideia em um produto de verdade.
Depois de todas essas experiências, eu comecei a pensar que precisava encontrar um produto que tivesse uma margem melhor. Foi quando comecei a pesquisar, conheci esse meu colega e começamos a desenvolver e testar as receitas. Acho que o verdadeiro ponto de virada aconteceu depois de aproximadamente nove meses de testes, quando finalmente chegamos a uma receita que consideramos boa o suficiente para colocar no mercado. Foi aquele momento de olhar para o produto e pensar: “Agora sim. Acho que isso já está pronto para ser vendido.”
E, a partir daí, comecei a finalizar todas as outras partes do produto. Desenvolvi o rótulo, fizemos a tabela nutricional com profissionais especializados e fomos ajustando os últimos detalhes. Quando olhei para a garrafa pronta, com a receita que eu já estava satisfeito e com toda a apresentação que eu tinha imaginado, aí sim senti que aquela ideia tinha deixado de ser apenas um projeto e tinha virado um produto de verdade.
Então, para mim, não foi um único momento, mas todo esse processo de transformar uma ideia em algo que eu realmente pudesse colocar na mão de outra pessoa e vender.

Você teve alguma inspiração ou algo que despertou a vontade de entrar especificamente nesse ramo de xaropes e bebidas?
É engraçado, porque acho que a minha vontade de entrar nesse ramo começou de uma maneira bem inesperada. Quando eu morava em Curitiba e jogava no Atlético Paranaense, o clube fazia algumas premiações para os atletas que se destacavam na escola. Eu sempre fui bastante estudioso e, na primeira vez em que pude concorrer, acabei ganhando. O prêmio era um jantar em uma das melhores churrascarias de Curitiba, com tudo liberado.
Eu fui com alguns amigos e colegas de futebol e, como era tudo de graça, pensei: “Vou experimentar tudo o que eu tiver vontade.” E foi justamente nesse jantar que eu experimentei soda italiana pela primeira vez.
Eu nem sabia direito o que era. Pedi uma de maçã verde, experimentei e achei deliciosa. Tanto que, naquela noite, acho que tomei umas cinco sodas italianas. No final, fiquei curioso e perguntei para o garçom como aquela bebida era feita. Foi aí que descobri que ela era preparada com xarope. A partir daquele momento, aquilo ficou na minha cabeça. Quando eu voltava para Londrina, comecei a pedir para minha mãe comprar xaropes para a gente fazer soda italiana e bebidas sem álcool em casa. Aos poucos, fui criando esse interesse pelo produto e entendendo melhor como ele funcionava.
Então, quando chegou o momento em que eu decidi empreender no segmento de bebidas, o xarope acabou sendo uma escolha muito natural. Eu já tinha uma relação pessoal com o produto, gostava de bebidas e sempre fui aquele cara que gostava de preparar os sucos nos churrascos e fazer alguma coisa diferente para as pessoas experimentarem. Acho que foi justamente a combinação de gosto pessoal, curiosidade e oportunidade de mercado que me levou para esse segmento. Eu já gostava de bebidas, já tinha tido contato com o xarope e, quando comecei a estudar possibilidades de negócio, percebi que existia uma oportunidade interessante ali.
Então, no fim, a Soltanto nasceu de uma mistura de algo que eu gostava com uma oportunidade que eu enxerguei no mercado.
Criar um produto exige testes, receitas e vigilância sanitária. Quais foram as maiores dificuldades em acertar a fórmula do xarope e fazer as pessoas confiarem na marca no início?
Acho que tivemos algumas dificuldades importantes, principalmente na parte de desenvolver uma fórmula que fosse boa, mas que também funcionasse comercialmente. No começo, a nossa ideia era fazer um produto que a gente realmente gostasse e tivesse orgulho de vender. Então, inicialmente, tentamos trabalhar com frutas in natura. Comprávamos os morangos, os limões e as outras frutas e produzíamos os xaropes a partir delas.
O problema é que, apesar de o resultado ser muito gostoso, a validade era muito curta. A gente não conseguia chegar a mais de duas ou três semanas, porque, por ser um produto natural, ele começava a fermentar e acabava apresentando problemas. Então percebemos que precisávamos encontrar outra solução e começamos a trabalhar com sucos concentrados. E aí surgiu outro desafio: encontrar bons fornecedores que tivessem a qualidade que a gente precisava. Hoje, por exemplo, nossos produtos vêm de fornecedores de Santa Catarina, São Paulo e Rio Grande do Sul, mas até chegar nesses parceiros foi um processo de muita pesquisa e testes.
Para acertar a fórmula, também tivemos bastante ajuda do pessoal do laboratório de alimentos da UEL. E uma coisa que eu aprendi nesse processo foi que você não precisa saber tudo sozinho. Pelo contrário: uma das melhores coisas que um empreendedor pode fazer é buscar pessoas que sabem mais do que ele e pedir ajuda.
Já a parte de fazer as pessoas confiarem na marca acho que veio muito da minha própria confiança no produto. Quando eu chegava para apresentar os xaropes para restaurantes maiores aqui de Londrina, eu realmente acreditava naquilo que estava vendendo. Eu gostava muito do produto, consumia em casa praticamente todos os dias e conhecia muito bem aquilo que estava oferecendo. Então eu conseguia falar sobre ele com muita propriedade e, principalmente, com brilho nos olhos. E eu acho que isso faz muita diferença. Quando você está vendendo alguma coisa em que realmente acredita, as pessoas percebem. Eu não precisava tentar convencer alguém de que o produto era bom se eu realmente acreditava nele e conseguia mostrar isso na prática. No fim, a confiança na marca começou com a nossa própria confiança no produto.

Como é a sua rotina dividida entre a produção dos xaropes e a venda para bares, restaurantes ou clientes finais?
A rotina é um pouco apertada, porque a gente acaba cuidando de várias áreas ao mesmo tempo. Além da produção e das vendas, a gente também dá bastante atenção ao marketing da marca, então estamos sempre produzindo conteúdo, gravando vídeos, pensando em campanhas e buscando novas formas de divulgar a Soltanto.
Para os consumidores finais, a gente concentra as vendas pelo nosso site. Isso facilita bastante a operação e também traz algumas vantagens para a marca, porque o site funciona como uma vitrine. A gente consegue fazer tráfego, direcionar as pessoas para lá e, ao mesmo tempo, passar mais confiança e credibilidade para quem está conhecendo a Soltanto pela primeira vez. Já com os bares e restaurantes, o processo é um pouco mais linear. A gente produz os xaropes, mantém um estoque e vai conversando com os estabelecimentos. Conforme eles precisam de reposição, entram em contato, a gente organiza os pedidos e faz as entregas.
No começo, uma das dificuldades era justamente entender quanto de estoque precisávamos manter para conseguir atender bem esses estabelecimentos sem produzir demais. Com o tempo, conforme fomos criando um relacionamento mais próximo com os clientes, conseguimos entender melhor a demanda e organizar a produção de uma maneira mais previsível. E uma coisa que considero muito importante nesse relacionamento com bares e restaurantes é que ele vai muito além de simplesmente vender o xarope. A gente gosta de construir uma parceria com o estabelecimento, porque isso também nos dá abertura para trabalhar o marketing da Soltanto dentro desses locais.
Afinal, não adianta apenas colocar um produto novo no cardápio e esperar que as pessoas percebam. O consumidor precisa ver, conhecer e ter vontade de experimentar aquela bebida. Então a gente trabalha com materiais de divulgação, conteúdo para Instagram e tráfego direcionado para esses estabelecimentos, buscando levar pessoas até o local para conhecer e experimentar as bebidas feitas com os nossos xaropes. No fim, nossa rotina acaba sendo uma mistura de produção, vendas, marketing e relacionamento. E acho que essa integração entre essas áreas é muito importante para fazer o produto realmente chegar ao consumidor.
Qual foi o momento mais marcante até agora? Lembra de quando viu o xarope da Soltanto sendo usado em um grande evento ou estabelecimento pela primeira vez?
Eu tive vários momentos marcantes e muito legais ao longo da história da Soltanto, mas acho que um dos mais importantes foi quando fizemos nossa primeira venda para um estabelecimento grande, que foi o Seu Brades, aqui em Londrina. Eu lembro que mandei uma mensagem para eles pelo Instagram e já fiquei muito feliz simplesmente por terem respondido. Depois disso, marcamos uma reunião e eu fui até lá apresentar os produtos. Eu estava bastante nervoso, porque era uma empresa grande e eu ainda estava começando.
Na reunião, tive a oportunidade de conversar diretamente com o dono e com toda a equipe. Eles experimentaram os nossos xaropes, foram gostando dos produtos e, no final, decidiram comprar. Foi muito marcante porque, naquele momento, eu estava começando a ficar um pouco desacreditado da marca. A gente ainda não estava vendendo tanto e eu ainda tinha muitas dúvidas se aquilo realmente poderia dar certo. Então, receber essa validação de uma empresa grande, que eu admirava e que estava disposta a colocar o meu produto para dentro do estabelecimento, foi muito emocionante.
Eu saí de lá muito mais confiante e, principalmente, com muito mais gás para continuar procurando novos clientes e acreditando no projeto. Hoje, olhando para trás, é muito legal pensar que aquela primeira venda foi só o começo. Atualmente, a gente já fornece para mais de 15 restaurantes e estabelecimentos aqui em Londrina.

Londrina tem um cenário forte de gastronomia e eventos. Quais são os planos e os próximos sonhos de expansão para a Soltanto nos próximos anos?
A Soltanto já está passando por um processo de transformação e entrando em uma nova fase, em que estamos buscando novos caminhos e novas formas de nos diferenciar no mercado. A gente entendeu que competir diretamente com marcas como a Monin, que possuem estruturas muito maiores, equipes enormes de vendas e marketing e um poder de investimento muito superior ao nosso, seria um caminho bastante difícil. Então, em vez de tentar simplesmente competir da mesma forma, estamos buscando espaços em que a Soltanto consiga oferecer algo diferente.
Um exemplo disso é o nosso produto mais recente: criamos uma caixinha com cinco xaropes diferentes, como uma espécie de kit de degustação. É um produto que representa um pouco o começo dessa nova fase e uma maneira de apresentar a marca para as pessoas de uma forma diferente. Mas, além dos produtos, a gente também quer investir muito na parte de educação. Queremos criar cursos para bartenders e para pessoas que desejam se aprofundar mais no universo da coquetelaria, além de criar oportunidades para que esses profissionais possam crescer. Também queremos construir uma comunidade em torno da marca, atraindo as pessoas por meio de conteúdos de qualidade, não só sobre bebidas e coquetelaria, mas também sobre marcas, mercado e todo esse universo que existe por trás dos produtos.
Hoje, eu vejo o futuro da Soltanto muito ligado a essa parte de educação, conteúdo e comunidade. A nossa ideia é primeiro construir uma comunidade forte e engajada, que seja realmente conectada com a marca e com o que a gente acredita. E, a partir dessa comunidade, voltar a investir cada vez mais em produtos de alta qualidade, inclusive com a possibilidade de retomar a produção de xaropes em larga escala.
O nosso grande sonho é construir uma marca que seja muito maior do que simplesmente um fabricante de xaropes: uma marca que ajude a democratizar o acesso à coquetelaria e a criar oportunidades para as pessoas dentro desse mercado.
Olhando para a marca hoje, estampada no rótulo, qual você considera que foi a maior conquista da empresa até agora?
Também é uma pergunta difícil, porque eu acho que tivemos várias conquistas importantes ao longo dessa trajetória. Uma delas, com certeza, foi conseguir colocar nossos produtos em restaurantes que são muito relevantes aqui em Londrina. O Casarão, por exemplo, é um restaurante muito tradicional da cidade e hoje a gente atende duas unidades deles. Também temos outros estabelecimentos importantes, como o Chopp Club, no centro, e isso é muito gratificante quando eu paro para pensar em onde a Soltanto conseguiu chegar. Mas, se eu tivesse que escolher uma única conquista, acho que seria a Soltanto ainda estar de pé.
Empreender não é fácil, principalmente quando você começa pequeno e precisa fazer praticamente tudo sozinho. A gente já passou por dificuldades, já precisou mudar de direção, testar novas ideias e repensar algumas coisas. E, mesmo assim, a marca continua existindo, crescendo, atraindo pessoas novas e buscando novos caminhos. Olhando para a marca hoje estampada naquele rótulo, acho que o que mais me orgulha não é apenas o produto que está ali, mas toda a história que existe por trás dele.
A maior conquista, para mim, é olhar para a Soltanto e perceber que ela continua viva, que eu continuo acreditando nela e que ainda temos vontade de desenvolver novas ideias e fazer coisas maiores. Talvez a maior conquista não seja ter chegado a algum lugar específico, mas ter conseguido continuar caminhando.

Que dica ou conselho de ouro você daria para alguém que tem interesse em criar seu próprio produto e iniciar uma marca do zero hoje em dia?
Se eu fosse começar uma nova marca ou desenvolver um novo produto hoje, eu faria algumas coisas que aprendi durante a trajetória da Soltanto. A primeira delas seria ter muito claro o propósito. Antes mesmo de desenvolver o produto, eu tentaria entender onde quero chegar com aquela ideia, por que estou criando aquilo e o que quero construir a partir dela. Porque é esse propósito que vai te dar energia, foco e vontade de continuar quando as coisas ficarem difíceis.
Depois disso, eu gastaria muito tempo no desenvolvimento do produto. Nós ficamos aproximadamente nove meses testando receitas, ingredientes e possibilidades, e, mesmo depois de todo esse tempo, eu ainda sinto que talvez pudéssemos ter dedicado mais tempo ao desenvolvimento. Por isso, meu conselho é: gaste o tempo que for necessário para construir uma ideia realmente sólida e um produto em que você acredita de verdade. Não tenha pressa de colocar algo no mercado simplesmente para dizer que lançou.
E, depois de ter um propósito claro e um produto bem desenvolvido, eu acho que é fundamental estar em movimento. Busque conteúdos sobre o mercado em que você está entrando, converse com pessoas diferentes, conheça novas pessoas e novos lugares, seja uma pessoa observadora e se coloque em situações que façam você sair da sua zona de conforto. Porque você nunca vai saber tudo. Esteja sempre aprendendo, sempre buscando novas referências e entendendo o que está acontecendo ao seu redor.
Se eu tivesse que resumir tudo em três coisas, seria: tenha um propósito claro, desenvolva muito bem aquilo que você está criando e nunca pare de se movimentar e aprender. Acho que é isso que faz uma ideia deixar de ser apenas uma ideia e começar, de fato, a se transformar em um negócio.

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