Julia Rodrigues dos Santos da Silva

O Kayera’s não começou com uma cafeteria. Começou com uma história.
Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco de sua história e falasse sobre seu empreendimento.
O Kayera’s é uma cafeteria situada na cidade de Rolândia, Paraná. O projeto nasceu em dezembro de 2018 e foi um nascimento em conjunto. Eu, Karina, ao lado do meu esposo Thiago, criamos nosso empreendimento pelo desejo da autonomia e independência profissional. Ele estava se desligando da empresa em que trabalhou por dez anos e eu estava a procura de emprego após minha conclusão da graduação de Letras. A única certeza que tínhamos e que precisávamos nos encontrar no âmbito profissional e nesta procura, encontramos a paixão pelo café.
Para ambos, falar sobre o Kayera’s é, de certa forma, falar sobre uma parte muito importante de nossa história e do desejo de criar muito mais do que uma cafeteria. Ansiamos por um espaço onde as pessoas pudessem desacelerar, tomar um bom café, comer algo gostoso e, principalmente, se sentir acolhidas.
Nós trabalhamos com cafés, bebidas, comidas e receitas preparadas com muito cuidado, mas acredito que o nosso verdadeiro produto é a experiência. É aquele momento em que a pessoa entra pela porta e sente que pode ficar mais um pouco. A nossa marca carrega muito o vínculo de trabalho, de café e de memória. E é isso que torna o Kayera’s tão especial para nós.
O nome da empresa chama muita atenção. Como surgiu o nome “Kayera’s Café” e qual é o significado ou a história por trás dele?
Caieiras era o apelido do avô do meu marido, senhor Alexandre Machado. Um homem que trabalhou parte de sua vida colhendo café e que também tinha uma relação muito forte com a música sertaneja. Nas horas vagas ele gostava de cantar e tocar moda de viola ao lado de seu irmão, o que fez eles serem conhecidos por amigos e familiares como Caieiras e Caierinhas.
Senhor Alexandre foi uma figura muito marcante: um homem simples, trabalhador, daqueles que carregam uma história nas mãos. Quando pensamos no nome para o café, queríamos homenagear justamente sua jornada. Então, o Kayera’s não nasceu simplesmente como um nome comercial, mudamos a grafia para representar melhor a nossa identidade, mas não deixou de ser uma homenagem. É como se cada café servido aqui carregasse um pedacinho da memória dele. Nós temos muito apreço pela escolha do nome, porque, de alguma forma, uma história que poderia ter ficado apenas dentro da família ganhou uma nova vida através da cafeteria.

Todo começo exige coragem. Como surgiu a ideia de abrir o café e o que motivou você a transformar esse desejo em um negócio real?
Tudo acontecendo de forma muito rápida. O Thiago e eu nos conhecemos no final de 2016, começamos um relacionamento e um ano depois estávamos abrindo nosso empreendimento. Participamos de uma feira de empreendedores sem ao menos ter o espaço físico. O acolhimento que tivemos na feira, por parte das pessoas que apreciaram nossos cafés, foi a confirmação que precisávamos para levar a ideia adiante. Conseguimos achar um ponto que fez nossos corações se encher de alegria. Tínhamos apenas um acerto rescisório e um sonho. O café foi aberto com baixo orçamento. Fizemos uma pesquisa sobre os primeiros passos para abrir uma cafeteria e todas as consultorias que encontramos era um balde de água fria, porque no papel, o investimento inicial ideal seria cem mil reais, e tínhamos apenas 14 mil.
Se fossemos esperar ter acesso ao dinheiro sugerido, talvez nunca teríamos conseguido empreender. Apostamos o que tínhamos, compramos o básico para conseguir abrir e isso inclui equipamentos e móveis usados. Passamos o primeiro ano vaporizando o leite em fogão de indução e apostamos em extrações de cafés básicos com coador de pano. Depois as coisas começaram a melhorar; conseguimos investir na máquina de café espresso, fomos fazendo pequenas reformas e ampliando ao longo dos anos.
O desejo sempre foi criar um lugar que tivesse personalidade, beleza, aconchego e que tivesse a nossa identidade. Mas transformar um desejo em negócio sempre exigiu coragem. Existe sempre aquele momento em que você pensa: “Será que vai dar certo? Será que as pessoas vão gostar? Será que eu estou preparada?” E acho que empreender é justamente aprender a caminhar mesmo sem ter todas as respostas. Nós decidimos transformar esse sonho em realidade porque acreditávamos que havia espaço para um café que não vendesse apenas produtos, mas que oferecesse uma experiência. Foi assim que começamos e estamos nessa caminhada há oito anos.
Quais foram os maiores desafios ou barreiras que você enfrentou logo no início, ao abrir as portas do Kayera’s Café?
Os desafios foram muitos. Existe uma diferença enorme entre imaginar uma cafeteria e administrar uma cafeteria. No começo, você precisa aprender praticamente tudo: produto, atendimento, fornecedores, estoque, custos, financeiro, divulgação, equipe, rotina… E, ao mesmo tempo, precisa cuidar para que aquilo que você imaginou não se perca no meio das dificuldades. Talvez o maior desafio tenha sido justamente esse: continuar acreditando no projeto mesmo nos dias em que as coisas não saíam como planejávamos. Empreender exige muito mais do que dinheiro. Exige persistência, capacidade de aprender e, principalmente, disposição para recomeçar todos os dias.

O cardápio de um café é a sua identidade. Como foi o processo de criação das receitas e de que forma vocês identificaram o que os clientes realmente iriam gostar?
Nosso cardápio foi sendo construído de uma maneira muito orgânica. A gente queria oferecer produtos que tivessem qualidade, mas também queria entender o que fazia sentido para os nossos clientes. Então, existe muito teste, muita conversa, observação e também coragem para mudar.
A parte da produção é toda responsabilidade do Thiago. Ele quem produz o cardápio todo. A mente por trás de cada teste. O Thiago é autodidata; nunca havia feito nenhum curso na área de gastronomia. Ele aprende, faz pesquisas e, depois de muitos testes, lança o produto no cardápio e analisa a aceitação de nosso público.
Algumas receitas nasceram de referências que gostamos, outras foram sendo adaptadas e a grande maioria surgiu completamente dentro da nossa cozinha. Mesmo com as referências e adaptações, nós chegamos ao ponto de receitas bem particulares. Tudo tem o toque do Kayera’s. É literalmente uma marca. Somos conhecidos pela cheesecake, procurados pelos cookies, e muitos de nossos clientes identificam, por exemplo, os brownies, como o “brownie do Kayera’s”.
E uma coisa muito interessante é que o cliente também participa dessa construção. Às vezes uma pessoa experimenta alguma coisa, dá uma sugestão, pede uma combinação diferente e aquilo acaba virando uma nova ideia. Então, nosso cardápio não é algo completamente fechado. Ele continua evoluindo junto com as pessoas que frequentam o Kayera’s.
Por trás das xícaras servidas e do ambiente bonito, existe a rotina. Qual é a parte mais trabalhosa ou complexa na gestão diária de um café que o cliente que se senta à mesa nem imagina que acontece?
Acreditamos que essa é uma das maiores surpresas para quem olha de fora. Quando o cliente chega, ele vê uma mesa bonita, uma xícara de café, uma comida sendo servida. Mas, para aquela xícara chegar até a mesa, existe uma cadeia enorme acontecendo nos bastidores. Tem compra, recebimento, estoque, controle de validade, produção, limpeza, organização, treinamento, financeiro, fornecedores, custos, planejamento… E existe também uma preocupação constante com os detalhes. O cliente não precisa saber de tudo isso, ele precisa simplesmente receber uma boa experiência. Então, muitas vezes, nosso trabalho é justamente fazer com que toda essa complexidade dos bastidores não apareça para quem está sentado tomando café.

Olhando para trás, qual foi o momento mais marcante ou emocionante da sua trajetória como empreendedora até agora? Aquele dia em que você teve certeza de que valeu a pena.
Existem vários momentos que poderíamos citar, mas acho que os mais emocionantes são aqueles em que percebemos que o Kayera’s deixou de ser apenas um projeto nosso e passou a fazer parte da vida das pessoas. É muito emocionante quando alguém volta. Quando uma pessoa traz outra pessoa. Quando alguém fala que gosta de determinado café, que se sente bem aqui ou que escolheu o Kayera’s para comemorar alguma coisa importante. Já tivemos muitos eventos na casa; sarau, casamento, ensaios fotográficos, muitos aniversários. Este é o momento em que você percebe que criou algo que ultrapassou o produto. Você não está apenas vendendo café, está criando memórias. E é aí que você olha para tudo o que enfrentou e pensa: “valeu a pena!”
Olhando para a frente: como você imagina e projeta o Kayera’s Café daqui a 10 anos? Quais são os grandes sonhos e planos de expansão para o futuro?
Eu imagino o Kayera’s crescendo, mas sem perder a nossa essência. Eu gostaria que a marca pudesse chegar a outros lugares, talvez através de novas unidades, produtos próprios, cafés especiais, experiências e projetos que ainda estão apenas no papel. Mas existe uma coisa que eu considero fundamental: crescer sem deixar de ser o Kayera’s. Eu não quero que uma possível expansão transforme a nossa identidade em alguma coisa genérica. Quero que, daqui a dez anos, uma pessoa entre em qualquer espaço com a nossa marca e ainda consiga sentir aquilo que sentimos hoje: acolhimento, cuidado, história e paixão pelo café. O sonho é grande, mas acho que todo grande projeto começa exatamente assim: primeiro como uma ideia que parece grande demais.
Olhando para a sua história, qual você considera que foi a maior conquista da empresa hoje?
Com toda certeza, a nossa maior conquista não é simplesmente ter uma cafeteria funcionando. É ter construído uma marca com identidade e significado. É olhar para o Kayera’s e saber que existe uma história por trás dele. Uma história de família, de coragem, de trabalho e de pessoas. Talvez nossa maior conquista seja perceber que aquilo que começou como um sonho particular, veio a fazer parte da rotina de outras pessoas. É sem sombra de dúvidas a parte mais significante.

Por fim, que conselho de ouro você deixaria para os jovens que querem começar a empreender?
Eu diria para não esperar o momento perfeito! Nós abrimos com baixo orçamento, provando para nós mesmos, que o sonho é possível com as possibilidades que temos. Somos os criadores do momento perfeito. Você precisa estudar, se preparar, fazer contas e planejar, claro. Mas em algum momento é preciso ter coragem para começar. E eu também diria: não tenha medo de começar pequeno. Começar pequeno não significa pensar pequeno. Significa construir uma base. Você vai errar, vai mudar de ideia, vai descobrir coisas que não sabia e provavelmente vai precisar recomeçar algumas vezes. Saibam que cada erro pode ensinar alguma coisa. E, principalmente, não perca a sua essência tentando copiar aquilo que já deu certo para outra pessoa. O que torna uma empresa especial é justamente aquilo que só você pode contar. No nosso caso, é isso que o Kayera’s representa: uma história que começou com café, mas que acabou se transformando em um lugar de encontros, memórias e sonhos. E talvez essa seja a maior lição que o Kayera’s me ensinou: às vezes, a gente começa um negócio pensando que está construindo uma empresa, mas, no caminho, percebe que está construindo uma história.

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