Marcio Vinicius de Melo de Alvarenga

O nome “Baudelaire” traz uma elegância e poética muito marcantes. Como surgiu a ideia de criar a empresa e por que a escolha desse nome para assinar os cookies?
A empresa surgiu, antes de tudo, da necessidade de uma renda extra. Éramos estudantes de Letras: eu, de Letras – Inglês; e meu sócio, de Letras – Português. No início, vendíamos bolo e geladinho, e o cookie era apenas um produto a mais no cardápio, até então. O nome Baudelaire foi inspirado nos personagens da série de livros infantis Desventuras em Série. Eu fui uma criança viciada no filme adaptado dos livros e, até a fase adulta, carreguei o sobrenome desses personagens comigo: “Baudelaire“. Sempre gostei de como soava, e o nome pegou muito rápido.
A empresa nasceu em Apucarana e expandiu para Londrina, conquistando clientes que viajam de outros municípios e estados apenas para provar os cookies. Como foi o início da produção e quando vocês perceberam que tinham em mãos um produto único que iria além da região?
A nossa produção iniciou-se em casa, nas madrugadas após o trabalho e a faculdade, na cozinha dos nossos pais. Até a abertura da nossa primeira loja, em Apucarana, ainda fabricávamos tudo em casa. Após o crescimento da empresa e a necessidade de contratar mais pessoas para trabalhar conosco e de profissionalizar nosso trabalho, conseguimos investir em espaços maiores e mais organizados, até chegarmos à fábrica que temos hoje.
Desde o início, quando decidimos nos tornar uma empresa focada exclusivamente na venda de cookies, priorizamos fazer algo que nós mesmos tivéssemos vontade de consumir: algo bonito, indulgente e que realmente valesse a pena. Por isso, digo que, desde sempre, sentimos que um produto assim chamaria a atenção de muitas pessoas.

Criar um cookie perfeito exige muita técnica, escolha de ingredientes e testes de receita. Como foi o processo de desenvolvimento do cardápio e qual é o segredo para manter o padrão de qualidade com o crescimento da demanda?
As primeiras receitas eram de produtos que encontrávamos na internet mesmo, geralmente em vídeos em língua inglesa, pois, na época, era muito comum encontrar receitas de cookies verdadeiramente funcionais apenas vindas lá de fora, onde esse produto era muito mais tradicional. Após um tempo, começamos a entender a função de cada ingrediente e como cada um se comportava nas receitas. Desta forma, fomos alterando a receita-base até chegarmos a um ponto em que estávamos satisfeitos e tínhamos criado um produto inteiramente nosso, com as características que buscávamos.
Por conta da dimensão que a loja ganhou e do tamanho que a nossa equipe tem hoje, precisamos delegar muitas funções que, por muito tempo, apenas nós executávamos. Ainda assim, as pessoas que têm acesso às receitas completas são apenas colaboradores selecionados.
Além disso, contamos com fichas técnicas em todas as áreas de produção, com o rendimento esperado de cada receita, peso de cada cookie, recheio, entre outros. Possuímos líderes de produção na fábrica, controle de qualidade nas lojas, rastreamento de cada lote produzido, um engenheiro de alimentos dentro da produção, nutricionistas que acompanham semanalmente os processos de padronização, qualidade e segurança alimentar, além de um grupo no qual gestores, gerentes e operadores trocam informações diariamente a respeito dos produtos que produzimos e vendemos no dia.
A Baudelaire é muito reconhecida pelo engajamento nas redes sociais e pelos vídeos de bastidores, que geram desejo e grandes filas. Qual foi o papel da internet e da produção de conteúdo no sucesso e na aceleração do negócio?
A internet foi a responsável por acelerar todo o processo de crescimento da marca. Por lá, muitas pessoas que ainda não conheciam nosso produto tiveram acesso a vídeos que mostravam toda a nossa rotina de loja e, muitas vezes, se interessavam em viajar quilômetros para provar nossos cookies. Por meio das redes sociais, atingimos pessoas que viajam, muitas vezes, do norte do país simplesmente para conhecer nossa loja e, em seguida, já voltam para suas cidades.

Abrir uma loja em uma cidade maior como Londrina traz novos custos e um público diferente. Quais foram os maiores desafios operacionais e financeiros ao expandir o negócio para fora da cidade de origem?
O maior desafio foi, sem dúvida, o financeiro. Gastamos muito mais do que tínhamos e podíamos. A obra levou o dobro do tempo estimado para ficar pronta e, de início, as vendas não corresponderam às nossas expectativas. Tivemos de contratar uma equipe maior, criar uma cultura organizacional e profissional diferente daquela a que estávamos acostumados, além de lidar com críticas e desafios para os quais não estávamos prontos e com um público que não estava habituado à nossa forma de trabalho.
Além do aspecto financeiro, gerenciar pessoas novas — que ainda não entendiam o que era a Baudelaire e a nossa forma de enxergá-la — demandou tempo, gerou frustração e deu muito trabalho. Alinhar o que oferecíamos às expectativas do público também foi algo extremamente difícil: a maioria não acreditava que tínhamos uma loja que vendia apenas cookies, não concordava com a lógica da nossa operação no atendimento e não aprovava nosso horário de funcionamento, entre vários outros pontos que demoramos a conseguir deixar mais claros para os clientes.
No dia a dia da loja, entre a produção, o forno e o atendimento ao público, qual é a parte mais complexa da rotina de gerenciar a Baudelaire que os clientes do outro lado do balcão nem imaginam?
Sem dúvida, a parte mais difícil é gerir a expectativa de todo mundo. Na internet, criamos muito desejo no público que gosta de doces, mas algumas pessoas chegam com uma expectativa que às vezes é quase irreal, pois tudo o que elas sabem e conhecem da nossa operação são recortes do nosso dia. É claro que só compartilhamos fatos reais do nosso trabalho nas redes sociais, mas carregar o peso do que os outros esperam não é fácil. Fazemos o máximo para atender a tanta expectativa, mas nem sempre é possível agradar a todos ou lidar com comentários que nem sempre retratam o esforço que colocamos na nossa operação.

Olhando para toda a caminhada até aqui, qual foi o momento mais marcante ou a maior conquista que fez vocês olharem para a loja e sentirem que cada obstáculo valeu a pena?
A rotina é tão corrida que, às vezes, eu nem me dou conta do caminho que já percorremos e das dificuldades que conseguimos superar — as quais, antes, pareciam quase impossíveis para mim. Porém, especialmente nos últimos anos, tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis e ouvir tantas outras que querem muito nos conhecer e provar nossos produtos, algo que só foi possível por conta da Baudelaire. Participamos de eventos tão grandes e importantes que, se eu estivesse fazendo outra coisa, talvez não tivesse tido tais experiências.
Além disso, por meio do crescimento da Baudelaire, conseguimos trazer outras pessoas que, lá atrás, acreditaram nesse sonho, e elas têm crescido passo a passo junto com a gente. Isso nos leva a crer que estamos bem acompanhados e crescendo em conjunto com aqueles que investiram tempo e esforço ao meu lado e ao do Junior, que também é dono da Baudelaire.
Para finalizar: a Baudelaire já é um fenômeno regional. Quais são os próximos grandes sonhos e planos de expansão para a marca e que conselhos de ouro vocês deixam para os jovens que desejam empreender no futuro?
Tenho sonhos a curto e a longo prazo. Primeiramente, quero abrir logo mais uma loja em Maringá e atender toda a nossa clientela de lá, pois gosto muito da cidade e creio que seja um passo crucial para nós chegarmos lá em breve. Após isso e a estabilização dos processos na nova loja, quero focar em construir uma fábrica maior e com mais capacidade de produção, aprimorando de forma contínua — como temos feito — os aspectos relacionados à qualidade de vida e de trabalho de todos os colaboradores da Baudelaire.
Meu conselho seria: esteja preparado física e emocionalmente. Obviamente não é fácil — nada é —, porém, se é realmente um sonho, e você tem a comprovação de que vale a pena insistir e mantém o pé no chão de que nada é perfeito e tudo precisa sempre melhorar, siga em frente. Saiba que existem processos fundamentais que você só vai ouvir e conhecer uma vez que tiver iniciado sua jornada como empreendedor, e que essa fantasia de que o dono não trabalha talvez só exista para aqueles que já estão consolidados e em uma posição que não é real para 99,9% da população.
Tenha em mente que qualquer trabalho é digno, que o regime CLT é uma conquista fundamental dos direitos trabalhistas e que, em qualquer função que você venha a desempenhar, tenha a consciência de fazê-la da melhor forma possível. Quase nada vem de graça; tudo exige um certo esforço que cabe a você decidir se vale a pena ou não.
A transformação social, na maioria das vezes, depende muito do conhecimento, dos estudos e de saber aproveitar as oportunidades. Esteja preparado, tenha vontade, não atrapalhe o outro, seja honesto e busque algo que possa te ajudar a viver aquilo que você sonha. Tenha o pé no chão, saiba que a internet é apenas um recorte muito bem selecionado e nem sempre corresponde à realidade. Sonhe, mas saiba que de nada adianta querer viver algo que você não tem agora fazendo sempre as mesmas coisas que você sempre fez.

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