Entrevista com a Prof.ª Rosimeire Polido
Julia Rodrigues dos Santos da Silva
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Para começar, gostaríamos que você se apresentasse brevemente para quem não a conhece além da sala de aula e também falasse sobre a atividade que pratica.
Vamos lá, Julinha, eu sou a Rosimeire. Eu tenho 44 anos, sou formada em Letras Português-Francês pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e, desde que me reconheço como gente, eu gosto de cozinhar.
Quando eu comecei a cozinhar, eu era muito pequena, muito, muito mesmo, e eu fazia as coisas. Eu tentava preparar as coisas com aquilo que minha mãe tinha do quintal, porque eu vivi uma vida muito simples, muito humilde e não tinha nada diferente em casa, mas tinha, por exemplo, um pé de laranja no fundo do quintal. Eu colhia as laranjas, fazia um suco e depois fazia um manjar, ou senão um doce de leite com um copo de leite, porque era dividido tudo com muita pouca quantidade, sabe. Eu fazia doce de leite e também fazia bolo, porque a minha mãe sempre soube fazer as comidas mais simples de casa, tipo arroz, feijão, macarrão e carne, mas ela nunca foi muito boa em fazer sobremesa, pão, bolo, essas coisas. Assim, como eu queria ter isso em casa, eu acabei me obrigando a aprender: eu pegava livro de receita emprestado das vizinhas até eu montar meu próprio livro de receitas e fazer bolo, pizza, torta, aquilo que eu tinha ingredientes pra fazer, porque na quela época era muito escasso.
E com o tempo eu fui arrumando trabalho e eu pude comprar ingredientes. Eu me apaixonava por cada coisa diferente que experimentava, por exemplo, eu experimentei azeite quando eu tinha uns 14, 15 anos. Eu fiquei simplesmente apaixonada pelo azeite. Falei “nossa! que tempero maravilhoso que isso aqui tem!”. Eu comecei a colocar azeite dentro da minha casa, porque era uma coisa muito difícil da gente ter, e isso também aconteceu com outras coisas. Eu sempre gostei de experimentar aquilo que eu não conhecia, então, eu fiz isso muitas vezes com muitos alimentos que antes eu nao tinha acesso e posteriormente eu tive.

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Se você tivesse que descrever o que sente ao fazer essa atividade em apenas uma palavra, qual seria e por quê?
A palavra que define essa minha atividade é satisfação, porque eu não faço pra vender, eu não faço pra festas, eu não faço pra nada disso. Eu faço simplesmemte pra minha família e para os meus amigos, quando vão na minha casa, e eu gosto de fazer as coisas e ver que as pessoas gostarem do sabor e que comeram tudo. Eu gosto de vasilhas vazias e de mesas cheias de comidas e depois vazias, porque as pessoas comeram tudo e se esbaldaram, então é satisfação a palavra.
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Como essa atividade entrou na sua vida? Foi algo que veio da infância ou surgiu por acaso na vida adulta?
Como eu disse anteriormente, o meu gosto de cozinhar surgiu na verdade da necessidades ou da vontade que eu tinha de comer coisas que eram diferentes do arroz, do feijão ou da carne e dessa comida mais simples a que eu tinha acesso quando era criança. Para eu melhorar o aspecto daquilo que eu comia ou pra comer alguma coisa diferente, eu considerei que eu tinha que fazer doces, sucos… eu tinha que inventar pratos com isso. E eu fiz.
Como eu morava numa cidade pequena, com frutas no fundo do quintal, essas frutas sempre serviram de base pra eu fazer geleinhas, doce, todas as coisas e sucos. As coisas da horta que eu inventava de fazer (bolinho com folha de cenoura, por exemplo) têm relação com a minha infância, com falta das coisas e, hoje, não mais por isso. Hoje, eu faço como relaxamento, eu estou cansada e não tem nada pra fazer, então, vou cozinhar: isso me causa muita satisfação, como eu disse pra você antes.

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Qual é a memória mais forte que você tem dos seus primeiros dias desenvolvendo esse talento?
A memória mais forte, mais significativa que eu tenho de quando eu comecei a cozinhar é que, como eu disse, eu gostava de fazer aquilo que eu achava que era gostoso, mas que eu não tinha em casa. Um dia, a minha vizinha falou da receita de um bolo francês (a receita se chamava “bolo francês”). Na verdade, esse bolo francês era uma massa de bolo simples, mas no caderno de receitas dela trazia açúcar, farinha e leite, mas não incluía fermento. E eu pensei (naquela época, eu sem experiência nenhuma) “nossa, esse bolo aqui deve ser um bolo diferente”. A minha mãe disse pra mim: “mas você não vai colocar fermento?” e eu: “não, não vou colocar, porque na receita não vai fermento”. Aí, é lógico que o bolo não deu certo, porque ele ficou embatumado, ele não cresceu. Eu fui falar pra vizinha que a receita não prestava, porque onde já se viu não ir fermento e ela respondeu pra mim que ela não tinha colocado que ia fermento porque todo bolo vai fermento. É quase como se eu tivesse esquecido da farinha do bolo, enfim, foi uma decepção, porque naquela época a comida, como eu disse, era escassa, então, gastar ovos, farinha, leite, açúcar pra fazer um negócio que não dava certo não era vantajoso lá em casa, porque significativa que a gente tinha jogado comida fora.
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Nesse começo, teve alguém especial que te incentivou ou alguém que não botou muita fé? Como você lidou com isso?
Sobre terem me incentivado ou me criticado, na verdade não. Tudo o que eu fazia as pessoas comiam ou não comiam, mas não era um problema, se estragasse, por exemplo. Quando eu fiquei um pouco mais velha, eu comecei a ganhar presentes como panela, livro de receitas, caderninho de receita, então, o incentivo foi esse. Mas, fora isso, nada aconteceu.
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Tem alguma história engraçada ou um momento marcante que aconteceu por causa dessa atividade que você possa compartilhar com a gente?
Olha, não sei se é uma história engraçada, mas eu, uma vez, perdi a minha aliança e falei “meu Deus, como eu fui perder a minha aliança?”. Já perdi outras vezes. Eu não sou boa pra guardar essa aliança, inclusive, nesse momento, a minha está perdida, mas, de qualquer forma, há alguns anos eu fiz uma feijoada (isso era comum na minha vida, fazia sempre), mas quando eu fiz, separei em potinhos e congelei.
No meio desse caminho, minha aliança sumiu. Eu não sabia onde estava. Nós comemos praticamente todos os potinhos de feijoada e, quando estavam faltando, sei lá, uns dois pontinhos que estavam congelados, eu quis colocar pra esquentar de novo pra descongelar e, na hora em que eu passei a colher no fundo da panela, fez um barulho de alguma coisa rapando. Eu tirei todo o feijão dessa panela e estava lá dentro a minha aliança perdida. Como que ela foi parar lá?! Na hora que eu lavei o feijão (eu estava mais magrinha), a aliança provavelmente escorregou do meu dedo.
Não é uma coisa engraçada, mas é uma coisa que aconteceu relacionada à cozinha. Resumindo: eu cozinhei a aliança junto com o feijao e a feijoada, eu a congelei e eu resgatei depois de algum tempo, quando fui descongelar o feijão.
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Com que frequência você consegue se dedicar a isso? Como você equilibra a prática com a rotina de aulas, correções e o dia a dia?
Sobre a frequência da minha atividade da cozinha, ela é basicamente semanal. Como eu não trabalho dois dias de semana, que são segunda e terça, eu estou sempre inventando alguma coisa. Esses são os dias que eu uso pra eu fazer bolos diferentes, cozinhar alguma coisa que eu não conheço, então, isso não atrapalha minha vida profissional porque eu dividi bem o meu tempo de modo que eu consigo fazer as minhas coisas todas na escola, ou pelo menos a maior parte delas, e quando eu estou na minha casa, eu me dedico apenas ao meu hobby. Eu não gosto de fazer em casa coisas que são relacionadas ao meu trabalho da escola. Eventualmente, até faço isso, mas eu acho que essa atividade exige ter um tempo disponível e os dias disponíveis são segunda e terça, então, é isso: uma atividade não atrapalha a outra.
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O que a motiva a manter essa rotina alternada? O que faz você não desistir mesmo nos dias mais cansativos?
Na verdade, eu falo que cozinhar não é terapia, mas é terapêutico. Quando estou muito cansada, eu penso assim: “ah, vou bater um bolo” e eu relaxo fazendo isso, por isso, cozinhar é um hobby pra mim, não é uma coisa cansativa. Eu tenho inclusive o hábito de receber muitas pessoas na minha casa e eu faço comida pra esse povo e eu gosto quando a comida é devorada, quando as pessoas comem aquilo que eu fiz e dizem que está gostoso e tudo mais. Não é cansativo para mim.
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Você sente que essa atividade ajuda a ser uma professora diferente? Ela reflete de alguma forma na sua maneira de dar aula?
Olha, eu não sei se me faz ser uma professora diferente. Eu acho que eu me dedico da mesma forma nas duas atividades. A diferença é que na minha casa eu cozinho por amor eu não preciso ser remunerada para que isso aconteça e no trabalho eu trabalho por dinheiro, mas eu gosto de fazer o que eu faço. Eu gosto de interagir com os meus alunos e, no final, das contas considerando a interação que eu tenho com eles, tem amor também. Só que de uma forma diferente. Eu não sei se uma coisa influencia na outra; eu sei que eu gosto de fazer as duas coisas e as duas coisas me fazem bem normalmente.

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Para você, essa atividade funciona como uma “válvula de escape” para se desligar das preocupações diárias?
Nossa! Com certeza cozinhar é uma válvula de escape. Eu disse ali pra trás, em alguma questão, que quando eu estou cansada, eu quero bater um bolo e é exatamente isso, mas eu também tenho uma questão com não desperdiçar alimentos. Quando eu vejo um alimento, eu penso “nossa, isso não pode se estragar de forma nenhuma” e esse pensamento me motiva a cozinhar. Cozinhar é vida! Tudo que tem de bom está relacionada com a comida: a gente se reúne com amigos, a gente sai, a gente faz coisas com a família… tudo isso está relacionada com a comida, pelo menos na minha vida é assim.
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O que você sente, no corpo e na mente, quando está totalmente imersa na atividade?
Eu sinto no corpo e na mente. Bom no corpo, eu engordo né? E isso não é a parte boa de tudo, mas na mente é o relaxamento mesmo. Quando eu estou fazendo isso, primeiro, eu gosto de cozinhar sozinha. Eu não gosto de ninguém junto comigo, mexendo nas minhas coisas ou dando a opinião da forma que eu tenho que fazer. É um momento que é só meu, eu fico imersa naquilo que eu estou fazendo. O tempo passa e eu nem percebo.
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Você acha que essa atividade artística reflete traços da sua personalidade? Ela ajuda a aprender coisas novas que você não aprenderia no trabalho?
Se isso reflete traços da minha personalidade? Talvez sim. Quando eu faço um bolo, eu faço para agradar o outro. Eu gosto de ver o outro feliz, eu gosto de ver a alegria na outra pessoa comendo. Isso, de certa forma, me retroalinenta, porque eu faço uma comida, a pessoa come e fica feliz eu também fico feliz, porque ela comeu e gostou.
Eu faço isso no meu dia a dia. Além da relação com a comida que eu gosto de cozinhar, quando tenho contato com as outras pessoas, eu gosto de escutar, eu gosto de servir. Eu acho que é mais ou menos a mesma coisa: do mesmo modo que eu me dedico à culinária, eu me dedico às pessoas. Eu sou uma pessoa ótima para ouvir. Eu sei segredos de muitas pessoas e eu não estou falando só dos alunos.
Eu sempre brinco que sei da vida de todo mundo e eu realmente sei da vida de todo mundo. Um monte de gente vem se aconselhar comigo e eu acho que é justamente pela forma carinhosa que eu abordo as pessoas ou a forma que eu rebeco as coisas que elas me contam.
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Você acredita que todo mundo nasce com um dom, ou isso é algo que a gente constrói? Como as pessoas podem se descobrir nesse sentido?
Eu acho que acredito nas duas possibilidades, todo mundo nasce com algum dom, alguma coisa que é boa em fazer. Mas, ao mesmo tempo que é boa em fazer, existem coisas que a gente pode aprimorar. Aquilo que a gente não sabe, a gente pode aprender. Eu acho que isso serve para a culinária, isso serve para a vida. Tem gente que é boa em conversar e convencer as pessoas, tem gente que faz curso de oratória para aprender a fazer isso.
Olha, eu acho que uma das formas de se descobrir, ainda em relação à questão, é se inserir em ambientes diferentes ou alheios àqueles que a gente normalmente está acostumado. Sabe quando a gente diz que abriu os horizontes? Como quando a gente conhece uma nova pessoa, quando a gente começa a frequentar um outro ambiente, a gente tem acesso a coisas que a gente não tinha. E isso faz com que a gente vá se lapidando, vá melhorando. Tem gente que vai se estragando também, mas, pensando que o ser humano está aqui para evoluir, eu penso que as pessoas evoluem quando têm contato com outras pessoas. Logo, o negócio é sair da zona de conforto e explorar novos ambientes, novas situações, novos conhecimentos e por ai vai.

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Que conselho ou incentivo você daria para quem quer começar uma atividade como essa, mas ainda não teve coragem?
Talvez o conselho seja pra mim também, porque o que eu faço é por hobby. Não é algo profissional, mas eu acho que o que ajuda muito é a gente se especializar. Por exemplo, eu estava de licença há alguns dias e eu quis me dedicar a isso, então, o que eu fui fazer? Eu fui fazer cursos. Eu fiz os cursos que eu conseguia no tempo que eu tinha disponível pra melhorar aquilo que é só um hobby.
Mas pras outras pessoas também não é diferente, se alguém tem vontade de trabalhar com isso, de viver disso, de cozinhar, tem que, pelo menos, se especializar um pouquinho. Porque a gente pode começar de maneira não profissional em todas as áreas. Qualquer coisa que a gente vai fazer, a gente pode começar de maneira não profissional, mas se a gente estuda, se a gente aprende coisas, a gente vai ser com certeza ser um profissional melhor. Então é isso, meu conselho é: estude pra ser aquilo que se pretende ser.
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