Doce Tardê: doces que se tornam memórias

Sarah Guimarães de Freitas

Gostaria que você se apresentasse, contasse um pouco de sua história e falasse sobre seu empreendimento.

Meu nome é André Felipe Guimarães Abranches, tenho 32 anos e minha história com o empreendedorismo começou muito cedo. Aos 19 anos, abri meu primeiro CNPJ, mas, antes mesmo disso, eu já empreendia. Já vendia produtos, doces e bolos de forma autônoma, inclusive durante períodos em que também trabalhava como CLT.

A Doce Tardê é a nossa nova marca, resultado de uma renovação da antiga Empório Doce. A nossa história começou em um momento bastante desafiador da minha vida, depois de passar por uma falência e também pelas dificuldades do período da pandemia. Foi a partir dessa necessidade de recomeçar que decidimos empreender novamente.

Começamos de uma forma muito simples, produzindo e vendendo pães, cucas e outros produtos de panificação. Aos poucos, fomos acrescentando os doces e aumentando nosso mix de produtos. Naquela época, não tínhamos loja: saíamos com as caixas na rua, atendendo escolas, comércios e vendendo diretamente para os clientes. Com o tempo, conseguimos formar e consolidar uma clientela. Depois de aproximadamente um ano e meio trabalhando dessa maneira, decidimos dar um novo passo e abrir novamente um CNPJ. Foi assim que nasceu oficialmente a Empório Doce, que hoje, após quatro anos de história, passa por uma nova fase e se transforma em Doce Tardê.

Como surgiu a ideia de abrir a Doce Tardê em Cascavel e o que motivou esse sonho? Havia algo no mercado da cidade que você sentia que faltava?

Complementando um pouco a primeira resposta, tudo surgiu de uma necessidade que tivemos após uma falência. Foi um momento em que precisávamos recomeçar e transformar uma situação difícil em uma nova oportunidade.

Mas, desde o início, eu não queria criar apenas mais uma confeitaria que vendesse brigadeiros e bolos. A ideia sempre foi buscar o diferente, trazer inovação e apresentar para Cascavel aquilo que muitas vezes o cliente via na internet e pensava: “Eu nunca vi isso na minha cidade”. Sempre buscamos novidades, tendências e produtos que pudessem surpreender nossos clientes.

Com o tempo, entendemos também que nosso propósito vai muito além de vender doces. A Doce Tardê busca fazer parte de momentos especiais da vida das pessoas. Quando fazemos um bolo de aniversário, por exemplo, aquele produto vai aparecer no álbum de fotos daquela família. Estamos presentes em aniversários, casamentos, chás revelação, chás de bebê e em tantas outras comemorações. Então, mais do que produzir doces, queremos ajudar a transformar momentos e fazer parte das memórias das pessoas. Esse é um dos principais propósitos da nossa marca.

O início de um negócio costuma exigir muito jogo de cintura. Quais foram os maiores desafios que você enfrentou para tirar a Doce Tardê do papel e conquistar os primeiros clientes?

Um dos maiores desafios que enfrentei no início da Empório Doce foi fazer o cliente entender o nosso preço e, principalmente, perceber o valor por trás dele.

Na mesma rua onde estávamos, existiam outras três panificadoras e confeitarias, muitas vezes oferecendo produtos iguais ou similares por preços mais baixos. Então, nosso desafio era mostrar por que o nosso produto custava aquele valor.

E não era somente uma questão de matéria-prima de qualidade, porque acredito que isso seja o básico. Nós queríamos entregar algo a mais. Sempre tivemos uma preocupação muito grande com o cliente, em entender aquilo que ele gostava e pensar na experiência e na sensação que ele teria ao consumir aquele produto. Por isso, acredito que um dos maiores desafios no começo foi justamente construir essa percepção de valor. Fazer com que as pessoas entendessem que não estavam simplesmente comprando um doce ou um bolo, mas uma experiência e um produto pensado em cada detalhe.

No ramo de doceria, a apresentação e o sabor caminham juntos. Como é o processo de criação dos doces de vocês? Existe alguma receita ou produto que é o “carro-chefe” e o xodó da casa?

Ao longo da nossa história, já tivemos diferentes produtos como carros-chefes. Durante muito tempo foram os bolos mais tradicionais, mas hoje temos dois produtos que se destacam muito: as nossas tortas em fatias e as coxinhas de costela. Na sequência, também temos uma procura muito grande pelos brownies e pelas tortas tradicionais.

Uma coisa interessante é que, mesmo sendo uma confeitaria, a coxinha conquistou um espaço muito grande dentro da nossa marca. Temos um público que vem especificamente atrás de uma coxinha diferenciada, mais gourmet, como a nossa coxinha de costela.E uma coisa acaba complementando a outra: muitas vezes, o cliente vem comprar a coxinha e acaba levando um doce; ou vem atrás de um doce e aproveita para levar o salgado. Isso acabou criando uma combinação muito interessante dentro da nossa loja e hoje faz parte da identidade dos nossos produtos.

Olhando para toda a trajetória até aqui, qual foi o momento mais marcante ou a maior reviravolta que você viveu como empreendedor?

Nós completamos quatro anos de empresa no dia 1º de agosto, e, sem dúvida, o momento mais marcante dessa trajetória aconteceu no dia 19 de fevereiro deste ano. Naquele momento, depois de aproximadamente três anos e meio de empresa, eu estava pensando seriamente em fechar as portas. As coisas estavam difíceis e, em uma conversa com Deus, decidi entregar 100% o controle da empresa nas mãos d’Ele. Eu costumo dizer que, naquele dia, decidi me tornar funcionário de Deus e deixar que Ele tocasse o barco.

Foi a partir daquele momento que surgiu a ideia de realizarmos o nosso Festival de Fatias. Era algo que eu já tinha visto acontecendo em outros estados e resolvemos trazer para cá. O festival teve uma repercussão que não imaginávamos. Nossos conteúdos começaram a alcançar muitas pessoas no Instagram e no Tik Tok, e aquilo realmente se tornou uma virada de chave para a empresa.

Em aproximadamente seis meses, conseguimos ampliar nossa loja, triplicar o tamanho da nossa cozinha, dobrar nossa equipe de trabalho e multiplicar nosso faturamento por quatro. Então, quando olho para toda a nossa trajetória, considero aquele momento, por volta do dia 19 de fevereiro, como um divisor de águas. Foi quando estávamos muito próximos de encerrar um ciclo e, de repente, começamos a viver uma fase completamente nova da empresa.

Manter as portas abertas e crescendo exige constância. Qual é a parte mais difícil na rotina diária de gestão da doceria que a maioria dos clientes nem imagina que existe?

Hoje, eu diria que o maior desafio da gestão é a mão de obra qualificada. Está cada vez mais difícil encontrar profissionais preparados para atender à demanda que temos. Quando pensamos em crescer e criar uma escala maior de produção, precisamos de pessoas para acompanhar esse crescimento, e encontrar essa mão de obra tem sido um dos nossos maiores desafios.

O segundo ponto é conseguir acompanhar o mercado e as constantes mudanças de preço. Quando você trabalha com confeitaria e preza pela qualidade, os insumos têm um custo elevado e sofrem muitas oscilações. Às vezes, de uma semana para outra, um mesmo produto pode aumentar 10%, 12% ou até mais. Então, existe um trabalho que o cliente muitas vezes não vê: precisamos ter jogo de cintura para equilibrar custos, manter boas marcas e matérias-primas, não perder a qualidade e, ao mesmo tempo, continuar inovando e trazendo produtos diferentes para o cliente. Fazer tudo isso funcionar diariamente é uma das partes mais difíceis da gestão.

Se olharmos para a Doce Tardê hoje, qual você considera que foi a maior conquista ou o maior orgulho da empresa até agora?

Uma das nossas maiores conquistas foi conseguir chegar à estrutura que temos hoje. Poder ampliar e reformar nossa loja, triplicar nossa cozinha e olhar para tudo aquilo que construímos é motivo de muito orgulho.

Mas existe uma conquista que vai além da estrutura física e do faturamento: o reconhecimento das pessoas. Hoje acontece de sermos reconhecidos na rua, no mercado, e de as pessoas virem conversar conosco, elogiarem nossos produtos e falarem sobre a qualidade do nosso trabalho.

Também fico muito feliz pelo reconhecimento da transparência que construímos com nossos clientes. Sempre procuramos mostrar nossa realidade, nosso trabalho e aquilo que acontece por trás da empresa. Quando alguém reconhece a gente e diz que gosta do nosso produto ou acompanha nossa história, isso tem um valor muito grande. É a confirmação de que não construímos apenas uma empresa, mas também uma relação com as pessoas.

A Doce Tardê já conquistou o seu espaço. Mas e o futuro? Qual é o próximo grande sonho ou projeto que você planeja realizar para a marca nos próximos anos? Na sua opinião, o que é essencial para abrir um negócio hoje?

Para o futuro da Doce Tardê, nosso foco agora é continuar crescendo e fortalecendo muito a marca, principalmente nas redes sociais. Já recebemos, inclusive, pessoas interessadas na possibilidade de franquia, mas hoje esse não é o caminho que eu pretendo seguir. Meu desejo é crescer mantendo nossa essência e tendo um controle muito próximo daquilo que entregamos.

Um dos grandes sonhos é abrir uma unidade na região central de Cascavel, sem fechar a loja que temos atualmente. A ideia seria transformar nossa estrutura atual cada vez mais em uma fábrica e centro de produção, enquanto essa nova unidade funcionaria como uma extensão da Doce Tardê, com uma proposta também voltada para café e experiência com o cliente. Temos, sim, vontade de crescer. Quem sabe, futuramente, até chegar a outras cidades. Mas isso é algo que eu prefiro colocar nas mãos de Deus e deixar que Ele mostre qual será o próximo passo.

Que conselhos práticos você daria para nós, estudantes, que queremos começar a empreender no futuro?

O conselho que eu daria para quem deseja empreender hoje é o mesmo que eu daria para o André de quatro anos atrás. Durante muito tempo, quando as coisas estavam indo bem e eu sentia que tudo estava sob o meu controle, eu simplesmente tomava minhas decisões. Quando as coisas fugiam do meu controle, aí eu pedia ajuda para Deus. Com o tempo, percebi que eu estava fazendo isso ao contrário. Hoje, até quando tenho certeza de alguma decisão, eu primeiro busco a opinião de Deus e procuro sentir paz no meu coração antes de seguir aquele caminho.

Por isso, se eu pudesse deixar um conselho, seria este: não chame Deus apenas para ser seu sócio. Chame Deus para ser seu patrão. Trabalhe com Ele, caminhe lado a lado e vista a camisa da empresa dEle. Empreender exige trabalho, dedicação, constância e muitas decisões difíceis. Mas eu aprendi que não preciso tomar todas essas decisões sozinho. Quando colocamos Deus à frente e estamos dispostos a trabalhar de verdade, Ele nos direciona para caminhos que, muitas vezes, nós mesmos não conseguiríamos enxergar.


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