Com o talento, a alma se completa

Entrevista com a Prof.ª Tereza

Felipe Martins da Silva

Para começar, gostaríamos que você se apresentasse brevemente para quem não a conhece além da sala de aula.

Eu sou a professora Tereza, estou aqui no colégio há 22 anos, praticamente. E sou formada em Arte, dou aula de Arte e sou uma “arteira”, para bem dizer. Procuro fazer as coisas de acordo com o gosto, com a vontade. Tenho uma cabecinha ocupada o tempo todo e gosto de coisas belas, como a maioria das pessoas que gostam de arte.

Sabemos que você faz artesanato. Se você tivesse que descrever o que sente ao fazer essa atividade em apenas uma palavra, qual seria e por quê?

“Completude” seria a palavra. Porque, na hora que a gente está fazendo o artesanato, é como se conseguisse concluir uma parte sua que está faltando. Então, aquela dor, aquele buraco que tem dentro da sua alma, é como se o artesanato trouxesse um curativo, uma forma de melhorar o que você pensa, o que você vê. Você põe um pouco da sua alma para fora com o artesanato.

Como essa atividade entrou na sua vida? Foi algo que veio da infância ou surgiu por acaso na vida adulta?

Da infância. Tudo que a gente carrega conosco vem da infância. Então, a criança nossa é que dita o que o adulto vai ser. E aquilo que faltou na infância, que eu senti como falta, é o que eu busco completar: o brinquedo que não tive, a roupa que eu queria, que não era possível… Tudo aquilo que os olhos brilhavam e a gente não podia ter. Então, de certa forma, quando eu faço artesanato é como se estivesse mimando a minha criança.

Qual é a memória mais forte que você tem dos seus primeiros dias desenvolvendo esse talento?

Acredito que foi quando eu entrei na escola. Acho que é a minha memória mais forte, porque eu era uma criança que não tinha “letramento” ainda: eu entrei de cara no primeiro ano, então, eu não conhecia as letras, mas eu já fazia desenhos. Foi a forma como chamei a atenção da professora, e ela botou reparo em mim, e viu que tinha um tico-tico a mais ali, e aprendi muito rápido as letras. E a professora, tipo assim, criou um encantamento, mas o que chamou a atenção foi o desenho.

Nesse começo, teve alguém especial que te incentivou ou alguém que não botou muita fé no artesanato? Como você lidou com isso?

Quando aparece uma pessoa que duvida da gente, é quando a gente ganha mais força para fazer as coisas, ? Parece que você arranca lá do fundo e fala, não, pois eu vou passar por cima disso, fulano disse que não vai dar certo, e vai dar. Aí a gente faz acontecer. Mas teve sim, teve meus irmãos, tenho irmãos mais velhos e sempre olhava aqueles fazendo coisa, na minha família todo mundo fazia algo. Meu pai também era um cara fazedor de coisas. A minha mãe, uma mulher muito especial no modo de fazer as coisas também. Então, acho que a gente foi assim, né? Olhando para os desafios, para quem duvidava de nós. Aquela vontade de esfregar na cara do outro, que a gente tem. E a força de ver os outros nossos ali também, fazendo as coisas e se virando na vida.

Tem alguma história engraçada ou um momento marcante que aconteceu por causa dessa atividade que você pratica e que possa compartilhar com a gente aqui da revista?

Uma história engraçada? Olha, tem umas histórias meio trágicas, não é um trágico ruim, é um trágico doido. Eu já perdi muita coisa, muita peça pronta. Eu lembro que uma vez eu fui fazer um vestido de quadrilha para a Professora Jeane, e aí eu trouxe aqui no colégio o vestido para ela. Ficou bonito, mas ficou grande. E eu fiquei tão chateada, porque eu teria que ajustar o vestido dela que eu cheguei em casa, botei numa sacolinha plástica, amarrei a sacolinha e pus em cima da máquina de costura. E quando penso que não, no automático, eu fui botar o lixo na rua e eu vi a sacolinha amarrada e achei que era lixo e joguei fora o vestido da professora! E aí, “fio”, cacei por uma semana esse vestido em casa, até que me toquei que tinha jogado no lixo. Eu tive que ir para Londrina para comprar um pano parecido e fazer outro vestido para ela. Hoje a gente dá risada, mas foi trágico! (Você pode contar isso aí; não tem problema, não!) (risos).

Com que frequência você consegue se dedicar a isso? Como você equilibra a prática com a rotina de aulas, correções e o dia a dia?

Alguma coisa a gente deixa de fazer! (risos) Então, assim, quando vamos praticar artesanato, costura, culinária, qualquer coisa, eu deixo, às vezes, o serviço de casa meio que de bando. A escola, a gente tem de seguir ali fazendo as coisas, cumprindo os prazos, mas alguma coisa fica faltante quando me dedico bastante ao artesanato. E a gente tem de abrir mão de algumas coisas para fazer outras.

O que a motiva a manter essa rotina alternada? O que faz você não desistir mesmo nos dias mais cansativos?

Olha, “filho”, a gente fala lá em casa que eu tenho a cabeça barulhenta. Sabe, você já entende, você é um menino fazedor de coisas, é como se tivesse um cupim comendo você por dentro, então, você precisa mexer, você precisa estar toda hora com a mãozinha fazendo tico-tico. Acho que você tem isso também! O meu marido fala que eu não paro com a minha mão. Eu fico até quieta, sentada, tentando assistir a um filme, mas minha mão tem que crochetar, costurar, desenhar. Eu fico com um fogo para fazer as coisas. Parece que, se eu não fizer isso, um vulcão vai explodir dentro de mim. Então, é quase uma terapia fazer artesanato. Acalma, né?

Você sente que essa atividade ajuda a ser uma professora diferente? Ela reflete de alguma forma na sua maneira de dar aula?

Acredito que sim. Eu não sei dizer como eu sou professora hoje. Vou falar para você: gostaria de ser uma professora melhor, mas a forma como eu tento me expressar, fazer as minhas coisas, mostrar um atalho, um caminho, eu acredito que faz com que eu seja uma professora que vai passar pela vida do aluno e vai dar uma cutucadinha nele de uma forma ou de outra. Uma cutucadinha às vezes, outras vezes não; a gente não está aqui para ser perfeito, então, vamos colecionar as carinhas tortas e viradas, e está tudo bem, mas ter essa sede, essa comichão dentro de nós. Essa coisa nos cutucando para a gente poder tentar mexer com o bichinho que está ali também em sala de aula, fazer o olhinho dele brilhar também de alguma forma. Eu gostaria que todos os olhinhos brilhassem!

Isso seria como um propósito para sua vida? Mudar a vida dos seus alunos de alguma forma?

É assim: passar pela vida da pessoa com uma lembrança de algo que poderia ser melhor, porque a gente não tem o poder de transformar a vida do outro, mas, enquanto caminhamos juntos, de fazer uma caminhada melhor. Eu gostaria que o meu aluno, que os meus alunos tivessem uma vida mais criativa; e tocar um foguinho neles, assim, de falar “menino, se vira, você dá conta! Você é inteligente, você é capaz! Você não tem que se depender dos outros. Você pode pegar alguma coisa e transformar em outra. Você pode dar um jeito! Você não precisa ficar dependendo de ter dinheiro para conseguir montar alguma coisa que você queira, fazer um trabalho, um projeto”. Então seria mais ou menos isso. A vontade que eu tenho é que a pessoa se virasse um pouquinho mais, sabe?

Para você, essa atividade funciona como uma “válvula de escape” para se desligar das preocupações diárias do trabalho e de tudo mais?

Ah, é sim, né? Quanto mais você está no mundo, você absorve muitas coisas e precisa ter um caminho para expandir a mente, relaxar, colocar a mão para trabalhar. E você sabe que a mão da gente parece que tem uma inteligência própria. Quanto mais você manipula com ela e faz coisas, parece que mais elas sabem o caminho de fazer. Por exemplo, a pessoa que faz pão, na primeira vez, pode não sair tão bom, mas, com o costume, ela faz de olhos fechados e cada vez melhor. Eu acho que carece da gente, hoje, botar as mãos para fazer mais as coisas e se desafiar todos os dias.

O que você sente, no corpo e na mente, quando está totalmente imersa na atividade?

Menino do céu! Nem fome eu sinto! Se deixasse, eu ficaria num canto, fechado, cheio de “baguio”, como dizem os alunos, cheio de coisinhas para eu poder mexer, fazer miniatura, fazer brinco, costura, inventar receita. Eu preferia ficar no canto, fazendo. Eu não veria dia passar, a noite passar. Acho que eu seria absorvida por tanta ideia, porque quanto mais você mexe, mais ideia brota.

Pena que, com o trabalho, a gente não tem tempo para isso.

Não! Tem as coisas de casa e a lida com os nossos, que precisam da gente também. Então, não dá para dar esse mergulhão que a gente gostaria, mas eu faria uma imersão grande assim. Ficaria uma semana sem ver cara de gente. Acho que eu nem comeria. Só tomaria água!

Você acha que essa atividade artística reflete traços da sua personalidade? Ela ajuda a aprender coisas novas que você não aprenderia no trabalho?

Reflete sim! A gente que trabalha com a parte criativa tem uma personalidade carente. Então, todo mundo que é das artes, da música, da literatura, a gente é carente. É como se a gente precisasse demais daquilo. O nosso trabalho de colégio não oferece que a gente dê tanta oportunidade para isso aparecer em nós e nos nossos alunos, porque é conteúdo, é aluno que pensa que é limitado, que tem uma cabecinha difícil para poder desenvolver. Tudo ele não sabe, tudo ele não consegue. Está totalmente limitado e a gente quer soltar a cordinha para ele e dizer: ˜você dá conta! E como você perguntou anteriormente, a personalidade da gente está ali, precisando, gritando para a gente fazer alguma coisa, senão, você sabe, a gente “pira”.

Você acredita que todo mundo nasce com um dom, ou isso é algo que a gente constrói? Como as pessoas podem se descobrir nesse sentido?

Essa pergunta é muito boa! Não acredito que nasce com dom, não, Felipe, porque acredito que a gente nasce com olhares, com sentido desenvolvido mais para um campo ou para outro. Por exemplo, o meu sentido de ouvir, eu penso que ele não é tão bom. Não gravo nomes com facilidade. Mas o visual é! E o que acontece é que a necessidade bate na porta. E quando a necessidade bate na porta, você pula, você faz as coisas. Você vai começar a desenhar porque você viu algo tão bonito, tão bacana, que você falou: “ah! Um dia eu quero fazer um parecido!” Se desafia. Você a necessidade de fazer aquilo. Então, enquanto a gente tiver a necessidade nos provar, de nos colocar ali e falar “eu dou conta!”. Hoje, estou um pouquinho melhor do que ontem, você vai se escalando, se melhorando, se desenvolvendo. Eu acredito nisso. Sempre acreditei nisso, porque seria muita sacanagem a pessoa nascer com um dom. É claro que tem gente que tem uma voz incrível e isso é só da pessoa, mas a pessoa já vir para o mundo plantadinha, fazendo as coisas, dando as piruetas e nós temos que aprender tudo do zero! Não seria legal.

Que conselho ou incentivo você daria para quem quer começar uma atividade como essa, mas ainda não teve coragem?

Nossa Senhora! É que vai ter que chegar a hora da pessoa. Assim, o fruto madura quanto tem que madurar. Às vezes, a pessoa tem um querer de boca, tem muita gente que quer com a boca, mas não quer com a alma. Quando está só na boca, não acontece nada. Só falando: “ah, eu quero! Eu quero fazer!” e na hora que você dá aquela respirada funda e toma posse de si mesma e diz “agora, eu vou”, você vai começar com o que tem, com as suas ferramentas, fazendo os seus quebra-galhos. O princípio de alguma coisa que pode evoluir e você pode querer continuar aquilo ali. Então, o que eu posso dizer para a pessoa é que, se a vontade dela é de verdade, vai brotar, vai aparecer, ela vai se desenvolver. Do contrário, é vento.

Você acha que, se uma pessoa tem um problema mental, como depressão, ansiedade, uma atividade como essa (artesanato, desenho), isso ajuda essa pessoa a melhorar ou isso incentiva essa pessoa?

É essencial, tanto que nas terapias que tem os tratamentos para as pessoas, sempre tem algo ocupacional, porque uma mente ocupada é uma mente melhorada. E não é uma ocupação ruim, não, porque a gente ocupa a cabeça com pensamentos intrusivos, de coisas desagradáveis e isso abaixa muito a nossa vibração, mas o fazer é essencial, porque você vai fazendo e pensando coisas melhores, vai melhorando, vai querendo fazer mais, vai ganhando força. Eu acredito que é mais do que necessário, além do tratamento terapêutico, é importante a pessoa fazer alguma coisa que a ocupe, que goste, que comece a desenvolver.

Então, você acha que é essencial para uma pessoa sobreviver ou simplesmente viver de forma feliz por meio da arte?

Olha, Felipe, eu penso que tem aquela questão que fala: “por que a arte? Porque a vida não basta!”. A vida sozinha é muito dura. A gente sem a música, o teatro, o cinema, a fotografia, o desenho, a pintura, a moda, o HQ, a culinária, seria umas conchas vazias. Então, a gente vai fazendo da arte pontos de encantar os nossos sentidos. É como se estivéssemos dando um presente para o nosso olhar, para a nossa audição, para o nosso tato, para a nossa sensibilidade, quando lemos, escutamos música, dançamos, fazemos teatro, artesanato… como se estivéssemos presenteando nossos sentidos dando sentido para a nossa existência, senão é muito vazia.


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