Heloiza Vitória Amaram Freitas e Mel Emanuele Coutinho
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Gostaríamos que você se apresentasse e falasse sobre sua formação acadêmica.
Olá, de início gostaria de agradecer o convite e a atenção. Sou João Guilherme, tenho 26 anos, sou natural de Rolândia, PR. Estudei o ensino fundamental e médio no, até então, Colégio Estadual Professor Francisco Villanueva. Sou formado em Artes Visuais – Licenciatura pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) (2022), Especialista em Direção de Arte: Design e Comunicação, pela mesma instituição (2024) e em Língua Portuguesa, Literatura e Artes, pela Faculdade Facuminas (2024).

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Você sempre teve a intenção de lecionar Mídias Digitais ou imaginava atuar em outra área/profissão?
Não, na realidade nem imagina lecionar sobre o tema, mesmo ele tendo relação com as artes visuais. Sempre me vi atuando na linha de História, Teoria e Crítica de arte, articulando com a produção dos alunos. No entanto, confesso que se não tivesse ido para o caminho da docência, gostaria de ter cursado Psicologia, com ênfase em Psicanálise.
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Qual foi o principal motivo que o levou a escolher lecionar no componente curricular de Mídias Digitais?
Para ser bastante honesto e sincero, foi a disponibilidade das aulas e a minha formação em Artes, que era critério para assumir as aulas. Mas, por se tratar de um componente curricular de itinerário formativo, enxerguei ali uma possibilidade mais dinâmica de trabalhar e promover reflexões.
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Sabendo que o colégio oferece outras áreas de tecnologia, como Robótica e Pensamento Computacional, o que o atraiu especificamente para a área de Mídias Digitais?
Gosto de pensar a tecnologia e a imagem como processos construtores de sentido e elementos sociais. As mídias digitais podem ser entendidas e estarem à disposição do processo criativo, elemento importante para as artes e diretamente relacionado à criatividade. Pensando pelo viés da subjetividade de quem cria e pelas possibilidades de interpretação, as mídias são mais dinâmicas e possíveis de serem articuladas com outras áreas do saber e da sociedade, se comparadas à Robótica e ao Pensamento Computacional.
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Como você descreve a experiência de ensinar sobre mídias digitais?
Desafiadora. Primeiro porque o material pensado e desenvolvido pela SEED/PR não aborda de maneira mais aprofundada os riscos e problemas relacionados ao consumo e aos impactos dos discursos midiáticos na contemporaneidade; a adequação do conteúdo é necessária e de extrema importância para estrutura do componente curricular e capacidade crítica dos alunos. Em segundo lugar, existe o desafio de promover recursos para que os próprios alunos/adolescentes consigam visualizar os prós e contras do produto estrutural da disciplina. Relacionar comunicação, produção, conhecimentos técnicos, linguagem, transmissão de conteúdo e mensagem é bastante complexo. Ainda mais em um momento em que nós, professores, precisamos competir com as mídias.

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Você considera importante a existência de um componente curricular focado em mídias digitais? Por quê?
Não. Acredito que as mídias digitais podem ser um conteúdo abordado no componente de Artes e/ou Sociologia, além de ser utilizado como material pedagógico e metodológico para temas sensíveis aos demais componentes curriculares. Dessa forma, seria mais proveitosa sua utilização e função educacional. Promoveria análises críticas de saberes fundamentais ao conhecimento, por meio de um recurso contemporâneo. Nos moldes atuais da organização pedagógica da disciplina, a mídia é abordada de forma direta na relação mercadológica da venda e consumo.
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Qual a importância de o aluno desenvolver o conhecimento sobre o funcionamento e o impacto das mídias digitais?
A primeira coisa que me vem à cabeça é: as mídias estão no mundo a serviço de quem? Porque elas são uma construção de discurso e transmissão de mensagens que atendem a algo ou a alguém. Acho que a “facilidade” das notícias na tela, do acesso a conteúdo da grande massa, alienantes, as redes sociais e as interações fáceis acabam borrando a fronteira e os limites do conteúdo e do produtor do conteúdo. A maioria das pessoas olham as mídias de igual para igual, não se questionam a respeito de sua origem, funcionalidade e intencionalidade, parece que lidam com algo inocente e inofensivo. Por isso, eu acredito que é de fundamental importância que os alunos tenham uma formação crítica a respeito das mídias digitais e sua utilidade.
Se por um lado as mídias promovem uma certa facilidade de acesso a conteúdos e informações e até uma promoção de carreira profissional (um dos motivos pelo qual o componente está presente na grade atual do ensino médio, que é totalmente focado no mercado de trabalho), por outro, as informações podem ser manipuladas, distorcidas ou transmitidas de uma maneira ineficiente. Em linhas gerais, acredito que, além de ser importante promover formas de os alunos identificarem o funcionamento e o impacto das mídias digitais, é necessário que eles desenvolvam habilidades para se portar diante dessas como um instrumento social.
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Na sua percepção, quais são os principais benefícios e malefícios do uso das mídias digitais no cotidiano dos alunos?
Recordo-me de um artigo do professor universitário Jorge Larrosa Bondía, em que ele trata a respeito de como estamos perdendo a capacidade de experienciar os acontecimentos ao nosso redor, em grande parte afetados pela tecnologia. Minha percepção está alinhada com a dele, acredito que a perda do foco e a distração são dois dos elementos maléficos do uso excessivo das mídias digitais. No entanto, acredito que a interação com pessoas importantes que estão distantes fisicamente de nós e a otimização do tempo em relação a pesquisas e busca de informações, quando bem-feitas, são algumas vantagens que as mídias nos promovem.

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Além do consumo, a disciplina Mídias Digitais incentiva a criação de conteúdo pelos estudantes? De que forma você estimula os alunos a serem produtores e não apenas consumidores de mídia?
Sim, muito atrelada ao mercado de trabalho e ao desenvolvimento de um campo de atuação profissional, assumindo as mídias como uma vitrine/catálogo virtual da promoção do serviço ou produto. Busco estimular os alunos do ponto de vista cultural, para que pensem ou considerem a possibilidade de produzirem arte, cinema e cultura visual, para isso promovo exemplos audiovisuais e debates a respeito das mídias como elemento ativo na construção e valorização da cultura nacional.