Entrevista: Débora Casotti

Felipe Martins da Silva e Lorena Gomes Leal

Para celebrar o aniversário de nosso colégio, entrevistamos Débora Alves Batista Casotti, que foi aluna aqui na década de 1980. Sua história de vida se mistura com a história do Villanueva, principalmente pela feliz coincidência de ela ter atuado aqui também como pedagoga. Sua entrevista representa um relato lindo e mostra como a nossa escola contribuiu para sua vida, assim como contribuiu para as vidas de muitas outras pessoas que já estudaram aqui. Esperamos que vocês, leitores, gostem do seu relato!

Pedagoga Débora Casotti.

Gostaríamos que você se apresentasse.

Olá! Meu nome é Débora. Moro aqui em Rolândia já tem alguns anos. Meu pai como era caminhoneiro, então, a gente mudou várias vezes. Eu morei em São Paulo, morei em Campinas e aí, quando eu estava na quarta série do primário, meu pai resolveu voltar pra Rolândia, fixar moradia aqui, pra gente cuidar dos meus avós. E, desde então, eu resido aqui em Rolândia.

Sou pedagoga. Já faz mais de 20 anos que atuo na área da Educação. Comecei na educação infantil, com os pequenininhos. Depois, eu trabalhei com primeiro a quinto ano, como pedagoga, tanto no município como no estado. Hoje, eu atuo como pedagoga no estado, vice-diretora e também tenho uma sala de primeiro ano, com crianças de 6 anos, de alfabetização.

Você se lembra de quais eram suas expectativas quando entrou no Villanueva? Tem algo que foi inesperado?

Como falei pra vocês, quando cheguei aqui em Rolândia, na quarta série, eu fui matriculada no Colégio Estadual Francisco Villanueva. E eu lembro que eu estranhei muito, porque a escola onde eu estava em Campinas era uma escola imensa, e aqui, para mim, o Villanueva era pequenininho, o portão de entrada era pequeno. Então, eu estranhei bastante. Não fui muito bem recebida. Eu entrei pra estudar numa sala bem difícil. A professora não gostava muito de mim. Eu já cheguei já quase no meio do ano. Então, tudo o que era feio de caderno, na época, elas encapavam os cadernos da gente. E colavam figurinhas e tudo o mais. E tudo o que era feio, ela dava pra mim.

Eu tive uma certa sorte porque quando eu cheguei de Campinas, muita coisa do que ela estava trabalhando aqui, eu já tinha aprendido lá, então, foi por isso que eu consegui acompanhar a turma. Hoje em dia, eu entendo, na minha sala tinha várias crianças repetentes assim de muitos anos. Era uns alunos bem fora da idade certa, bem mais velhos, e eles tiravam sarro da professora e falavam que era eu que estava falando da professora e eu era muito bobinha. Era muito bobinha.

Eu fui criada, minha mãe não deixava eu brincar na rua. E como a gente morava em São Paulo, depois, Campinas, cidades muito grandes, eu brincava com meu irmão ou com algum vizinho que a gente tinha contato, mas a gente era muito bobinho nessa situação, nessa época. Então, eu sofri muito, porque eles faziam as coisa e me colocavam nos rolos. Então, estranhei bastante a escola, sofri bastante… tiravam sarro de mim. Lá em Campinas, o uniforme era uma saia plissada, uma camiseta e tênis. E eu sempre tive cabelo muito comprido por conta da minha religião, por ser evangélica, então, eles me apelidavam, colocavam uns apelidos bem horríveis e puxavam os meus cabelos e me empurravam. Então, foi assim bem difícil para mim essa mudança de escola. Esse chegar no Villanueva foi bastante difícil.

Durante o seu tempo no Colégio Villanueva, seja dentro ou fora da sala de aula, qual foi a maior lição que você aprendeu?

Então, durante o tempo em que eu permaneci no colégio, porque eu cheguei nessa época e me formei no magistério no Villanueva. Eu saí depois de terminar o ensino médio e eu aprendi que a gente precisa se impor, a gente precisa conquistar o nosso espaço, seja onde a gente for. Como eu era muito ingênua, então eu sofri bastante, mas com o decorrer dos anos, eu também me transformei e mudei muito. Mudei bastante.

Nos anos escolares, aprendemos muito sobre quem somos, o que queremos ser, como podemos evoluir. O Colégio Villanueva pôde auxiliar nessa questão?

Durante o tempo em que eu fiquei no Villanueva, eu não tinha muita expectativa de me formar, de ser professora ou, sei lá, qualquer outra coisa. Eu queria terminar o ensino médio e trabalhar numa empresa, que era o que todo mundo, na época, fazia: terminava a escola, ia trabalhar em empresa e tudo bem. E a gente, talvez, pelos pais também não terem tanta instrução, a gente não tinha uma mentalidade assim de “ah, vamos melhorar, vamos estudar, fazer uma universidade”, não. Mas durante o tem que eu fiquei aí, eu tive duas professoras que me marcaram bastante: uma foi a Cida Portolese, que foi minha professora, ela foi pedagoga; e a outra, que mais me marcou, foi a professora Neuza Canônico. Ela era uma professora de História e ela fazia a gente pensar muito, refletir muito. Tanto ela como a Portolese fazia isso. Então, quando eu estava terminando o magistério, eu vi algumas pessoas da minha sala que queriam fazer faculdade, fizeram vestibular e seguiram carreira e eu resolvi fazer. O primeiro vestibular que eu fiz, eu passei, mas eu passei bem abaixo e tinha a tal das vagas remanescentes, porque muita gente não assume, depois eles vão chamando e eu não sabia: perdi. Fiz um terceiro, que também passei, mas não fui muito bem, fiquei lá embaixo. Desculpa, fiz o segundo, não fui muito bem, mas fui aprovada e fiz o terceiro, aí no terceiro eu passei em quinto lugar.

Eu nunca tive condições financeiras de estudar, fazer um cursinho, então, tudo o que eu estudei foi no Villanueva e sozinha em casa, com o material que eu tinha, que recebia na escola. Na nossa época, era bem difícil, nem livro a gente tinha. Tudo era muito caro, então, o material escolar, ou a gente emprestava ou a gente ia na biblioteca estudar. Então, eu estudei com o que eu tinha em casa.

E aí entrei na UEL, fiz Pedagogia, fui bolsista na UEL, fiz um concurso e voltei a trabalhar no Villanueva, como pedagoga e fui pedagoga de alguns professores que foram os meus professores, de quando eu estudava na escola, então, o Villanueva representa muito, muito na minha vida, porque foi através da escola, dos contatos que eu tive, dos professores – eu tive ótimos professores – que me levaram a mudar a minha visão de mundo, a mudar a minha vida, porque eu sempre falo que a educação transforma o ser humano. Como eu disse, eu não tinha muita perspectiva de nada, a não ser trabalhar em uma empresa e, enfim, ter uma casa, um carro… era isso! Mas a educação me transformou e foi aí, no Villanueva, com professores que fazem a diferença na vida da gente.

As amizades que você fez no Colégio Villanueva tiveram alguma importância para a sua vida?

Durante o período em que eu estudei no Villa, eu tive muitos amigos, amigos que a gente leva pra vida, amigos que a gente se perde no caminho, conhecidos, enfim, pessoas que até hoje eu encontro e falo “ah, a gente estudou junto!” e tal. E eu tive duas amigas que me acompanharam até a universidade e, hoje, cada uma seguiu o seu caminho. Tem uma, inclusive, que não mora mais aqui; ela foi embora para o litoral. Mas foram duas amigas que a gente foi até a faculdade. A gente entrou. Não estudamos juntos na universidade: cada uma entrou em um período, mas a gente se formou e todas seguiram a carreira na educação.

Você ainda mantém contato com algum amigo ou amiga daquela época? Se sim, como essa amizade começou?

A gente, às vezes, se vê. Tem uma delas que a gente se encontra em cursos da prefeitura, quando faz, porque ela trabalha na prefeitura. Ela é professora do município. E a outra eu também encontrava, mas ela foi embora. Então, não tem mais aquela amizade que a gente tinha, de uma estar na casa da outra, até porque cada uma segue um rumo, mas a gente ainda conversa até hoje.

E se você pudesse voltar no tempo para reviver um único momento no colégio, qual seria esse momento e por quê?

Quando penso na minha trajetória na escola, se eu pudesse voltar a um momento, eu gostaria de voltar para a época em que eu fazia o fundamental II. Meu irmão, que já partiu dessa vida, eu estudava no ginásio e ele também estava no fundamental I, e nessa época, a vida era muito boa, a gente brincava muito. E a escola me proporcionava isso. Na escola, o Villanueva mudou muito: onde é a cantina, a gente brincava ali de trepa-trepa, que falava. Era um local onde a gente brincava. As salas ali de fora não existiam, então, era tudo cheio de grama, de árvore, e a gente brincava muito naquele local.

Então, tinha muitos espaços verdes ali, e a gente corria, corria, corria. É um momento assim que, se eu pudesse voltar e reviver na escola, seria esse momento: de companheirismo, de amizade, de brincadeiras… que são as lembranças boas que ficam.

Após você ter se formado, como foi a sua caminhada na vida?

E voltando a falar um pouquinho da minha vida, eu me formei no Villanueva, fui para a universidade, fiz Pedagogia, fui bolsista lá na universidade, peguei duas greves na UEL. Então, me formei bem depois do tempo que era previsto. Fiz pós-graduação, fiz publicações, viajei muito, publiquei e apresentei trabalhos, fiz vários concursos. Consegui passar em alguns. Fui chamada; em outros, não. E passei o concurso do Estado e do município, então, como eu disse, anteriormente, hoje sou professora da rede municipal e sou pedagoga concursada do Estado.

Quando você estava na escola, aprendia muitos conteúdos e muitas lições, mas sabemos que, na realidade, a vida é diferente. Você viveu um choque durante essa transição? O que te surpreendeu em relação a isso?

Quando eu estudava, a gente aprendia muita coisa sobre a vida, sobre o conteúdo formal. E quando a gente vai para a realidade, a realidade é diferente! É muito diferente, mas eu também tive muitos professores… a Professora Cida Portolese, mesmo, deixava muito claro pra gente que a vida não era fácil. E ela dava essa visão da realidade. Lógico que, quando você sai, é um choque mesmo: você se depara com dificuldades. Por exemplo, eu não conseguia trabalho, eu não conseguia trabalhar. Tinha lugares que eu ia, que tinha muito estudo; tinha lugares que eu ia, que faltava estudo. Então, é muito difícil. Pra mim, foi ingressar no mercado de trabalho. E eu precisava! Precisava trabalhar, precisava ter dinheiro, precisava ajudar na minha casa, na minha família. E foi muito difícil. Então, é um choque. A escola, eu penso que os professores… precisamos de professores que, como a Cida Portolese, que deixavam muito claro pra gente que a vida não é um mar de rosas. E não é! A gente estuda ali. Parece tudo muito bonito… e é bonito! Porém, a realidade é assustadora. Foi bem difícil depois que me formei, depois que saí do Villa. Na universidade, não foi fácil. Quando saí da universidade, também não foi fácil. Então, a gente precisa ter muito claro isso, quando a gente estuda. E eu falo isso para os meus alunos. Eu sou daquela pedagoga, daquela professora que deixa claro para eles que a vida não é fácil, que a gente precisa batalhar, que a gente precisa lutar e que sem a educação é muito pior! Se você, com a educação, já é difícil você formado; sem ela, é pior ainda!

Hoje, vendo tudo o que a escola e a sociedade passaram nas últimas décadas e considerando o papel de uma escola hoje, como você pensa que nosso colégio deverá ser daqui em diante?

Analisando hoje como está o mundo, a sociedade e as pessoas, o futuro me assusta bastante. A gente tem aí uma transformação em vários sentidos e, em especial, vejo até uma tecnologia muito avançada e a escola vem tentando acompanhar esse avanço (nem sempre consegue). Muitas vezes também os alunos não aceitam, não se importam muito em pensar no futuro. A escola, eu vejo, precisa preparar para a vida, precisa preparar o aluno com o conhecimento formal, mas que ele também saiba utilizar esse conhecimento formal que aprende na escola na vida cotidiana dele. E eu vejo assim: o Villanueva passou por transformações. Nós ainda temos aí professores que são antigos, ótimos professores, e que uma hora também vão se aposentar. E vem chegando uma geração nova; e eu penso que a escola precisa se adaptar e precisa adaptar o seu corpo docente para trabalhar com os alunos de uma forma que eles saibam, quando sair da escola, conseguir o seu espaço na sociedade.

Se você pudesse dar um conselho para um aluno atual do colégio, qual seria esse conselho? E por que você gostaria de dizer isso?

Hoje, se eu pudesse dar um conselho para algum aluno no colégio, eu diria para ele: “aproveita! Aproveita! Tem um filme chamado “Sociedade dos Poetas Mortos”, em que eles usam muito o termo carpe diem, que é “aproveite o dia”. Então, eu deixaria essa fala: “aproveite esse momento em que você está no colégio, aproveite tudo o que ele pode te oferecer, que ele só oferece coisas boas. Ele oferece uma merenda boa, um espaço bom… oferece professores bons, ensino de qualidade, tecnologia. Então, aproveita tudo isso, porque não é fácil quando você sai. Não é fácil!”

Eu gostaria de dizer isso para que aproveitasse, porque sempre aquele aluno que aproveita o máximo possível vai ser o diferencial lá fora, quando sair da escola. Aquele que leva tudo na brincadeira, que não se empenha, que não está nem aí, geralmente, sofre mais. Então, aproveita, porque tudo o que você adquirir, todo o conhecimento, todo o aprendizado, todas as vivências que você tiver no colégio vai fazer diferença na sua vida, quando você se formar.